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São gêmeos! Aspectos psicológicos da gravidez múltipla


Como vocês sabem, esse blog tem o objetivo de transmitir informação para qualquer público, em uma linguagem acessível. Gemelaridade é um tema que tem bastante coisa para discutirmos, desde a gestação até o cuidado com os bebês.

Temida por uns, desejada por outros, a gestação de gêmeos não é tão incomum hoje em dia, principalmente por causa de dois fatores: maior procura pelas técnicas de reprodução assistida e inseminação artificial, e idade avançada da mulher.

Não estamos falando só de dois gêmeos. Existem, ainda que mais raros, casos de trigêmeos, quadrigêmeos, quíntuplos, sêxtuplos…

Muitos pais tem o desejo de terem filhos gêmeos. Uns por acharem bonitinho (vestir com roupas parecidas, a proximidade especial que um tem com o outro…), outros por acreditarem que “ter dois de uma vez só” seja mais fácil. Geralmente pais que passam por processos de fertilização aceitam melhor a gestação gemelar, por já entenderem sobre a chance de isso acontecer (muitas vezes são implantados mais de dois óvulos fecundados, e todos tem chance de se desenvolverem).

Já para outros casais, a notícia da chegada de mais de um bebê assusta muito e gera uma série de inseguranças.

Uma coisa importante de ser lembrada é que a gestação gemelar é considerada de risco. Vamos falar um pouco dos riscos para entender melhor a parte emocional, ok?

Por gestação de risco podemos entender como a gestação que tem mais possibilidade de apresentar complicações. Mas nem toda gestação gemelar apresenta intercorrências e podem ser perfeitamente saudáveis e tranquilas.

Dentre os riscos desse tipo de gravidez, podem acontecer: prematuridade, retardo no crescimento fetal, baixo peso ao nascer, malformações fetais, risco maior de mortalidade e morbidade materna e do bebê, hipertensão e diabetes gestacional, hemorragia e pré-eclâmpsia.

Não podemos desconsiderar que existem também fatores econômicos e sociais que podem preocupar os pais, como isolamento (por dedicar muito do seu tempo aos bebês, pouco tempo para passear, etc), gastos dobrados, abandono do trabalho da mãe (muitos casais optam por deixar os bebês aos cuidados da mãe nos primeiros anos de vida das crianças), pai “compensando” economia familiar trabalhando mais, dentre outros fatores.

Sabendo de tudo isso, é comum que os pais sintam estrese, culpa, ansiedade, depressão, raiva, perda de controle, conflito emocional, dúvidas quanto à sua capacidade de ser mãe/pai, sobrecarga com cuidados dos bebês, inadequação, fadiga. Se com um bebê às vezes já observamos algumas dificuldades em uma ou outra coisa, imagine com dois, três (4,5…) bebês.

Existem, inclusive, relatos de mães que dizem que passam tanto tempo se dedicando ao cuidados com os bebês (alimentação, banho, fraldas…), que não conseguem tempo para interagir com eles.

Nos casos em que há prematuridade, ou necessidade de um dos bebês ficar mais tempo no hospital, percebemos uma tendência de surgirem mais sentimentos de culpa, ressentimento e inadequação na mãe.

Muitas vezes elas se sentem “perdidas” ou “esquecidas” em favor dos filhos e sem saber mais sobre sua própria identidade. Pode acabar acontecendo o deterioramento da relação conjugal devido ao menor tempo para comunicação entre o casal.

Nesse cenário, o pai é mais requisitado como ajudante nos cuidados com o bebê e nas tarefas domésticas.

Durante a gravidez, podem surgir preocupações com a perda de um ou mais bebês, ou que tenham algum problema de saúde.

A ambivalência de sentimentos é muito normal, pois, mesmo diante de todos esses medos, os pais muitas vezes se sentem abençoados por terem uma gestação tão especial, sortudos, felizes, orgulhosos e realizados.

O que se percebe é que pais de gêmeos conseguem dar conta dessa situação, se entregam ao processo da maternidade/paternidade, afinal, não há registros de que filhos gêmeos apresentem maiores problemas psíquicos ou interpessoais do que filhos de gestação única.

É normal que os pais façam uma diferenciação entre os bebês desde o útero: aquele que mexe mais, aquele que é mais quietinho, o que gosta mais de tal música, e por aí vai.

É fato que é um processo mais custoso psiquicamente, e já se entende que para cada gêmeo há um processo de maternagem diferente, uma mãe distinta para cada um deles. Essa é uma forma de os pais lidarem com a individualidade de cada bebê, já que, apesar de terem nascidos juntos, são pessoas diferentes, com personalidades e necessidades diferentes. Essa diferenciação é fundamental para a formação da identidade deles. Deve-se tratar cada bebê como se fosse único.

Não está parecendo fácil exercer duas, três, quatro maternidades diferentes simultaneamente? Realmente é mais difícil, e por isso falaremos sobre outro ponto importante: a rede de apoio. O suporte social é fundamental e o casal precisa conversar para estar aberto para pedir ajuda (aos avós, tios, amigos…).

Também é muito importante que o casal converse bastante, que haja a participação ativa do pai, renegociando os papéis de cada um com os cuidados com os bebês. Aliás, casais que conversam mais e dividem melhor esses cuidados, tendem à melhorar a qualidade da relação conjugal, fazendo com que se sintam mais unidos.

Existe um fato muito interessante de que os bebês também tendem a colaborar com os pais nos seus cuidados, no sentido que, observando que há mais de um bebê demandando naquela família, eles mesmos se “revezam”: enquanto um recebe o banho ou a troca da fralda, é muito comum que o outro fique mais quieto e tranquilo, esperando a mãe/pai terminar a tarefa. Quase como uma colaboração familiar, ajudando os pais a administrarem melhor a rotina. Mas se o banho termina, e se por acaso os pais fazem carinho demais ou conversa demais com o bebê que está sendo cuidado, o outro logo chora pedindo atenção também. Isso se chama trama de continência e capacita cada um dos irmãos a antecipar os movimentos do ambiente e vivenciar uma experiência, através de um vínculo de confiança nas ausências maternas.

Considerando tudo isso, precisamos entender e respeitar que é impossível para uma mãe satisfazer e atender de forma impecável dois/três bebês ao mesmo tempo. De uma certa forma, tudo bem se ela fracassar em uma ou outra tarefa. É preciso se contentar em fazer o melhor possível, aquilo que estiver ao seu alcance, dentro de suas possibilidades. Libertar-se da culpa de se sentir insuficiente, e entendendo que o que lhe cabe é aquilo que consegue efetivamente fazer.



Referências Bibliográficas:

RIBEIRO, Fernada Schmitt. SANTOS, Natália de Toni Guimarães. ZORNIG, Silvia Maria Abu-Jamra. Dividida em dois? A experiência materna nos casos gemelares. Nat. hum. vol.18 no.1.São Paulo,2016.

BENUTE, Gláucia Rosana Guerra. Et al. Aspectos psicossociais da gestação múltipla: revisão de literatura. Psicol. hosp. São Paulo,jul2010.

DAVID, Daniela Leite. Tríade de contato íntimo: apego entre mãe e filhos gêmeos. Rev. biociênc., v.6. Taubaté, 2000.

13º Colóquio de Psicologia e Educação. VEIGA, Sofia. Desafios da gravidez gemelar: do diagnóstico ao parto. 201-?.

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