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Re-atualizações Inconscientes

Por Joanna Carolina Ramalho e Oliveira Martins


Inconsciente. Tanto se ouve falar. Mas, afinal, o que é exatamente esse inconsciente? O que é a re-atualização inconsciente que se encontra em textos de psicologia acerca das vivências maternas? Quando e como ocorrem? As nossas vivências ficam registradas no inconsciente. De alguma forma o que foi vivido não se perde. O que experimentamos em nosso corpo, o que sentimos via nossos órgãos dos sentidos, desde a mais tenra idade, fica armazenado em nós, em forma de registros, por vezes sutis. O termo Inconsciente já fora utilizado por cientistas e filósofos e refere-se ao que não pertence ao consciente. Freud (1915) atribuiu ao termo um caráter psíquico, abrangendo "tudo que se passava no plano desconhecido da mente aos mistérios do corpo, da alma e do espírito." Diz respeito ao local 1 onde encontra-se todo o conteúdo que fora reprimido, em função de algo ameaçador, ou traumático (ou seja, que excedeu a capacidade psíquica do indivíduo para dar conta), e, também, todo conteúdo que não fora sequer representado, isto é, que não possui nem possuiu significado, não foi entendido, nomeado, percebido de forma consciente; tudo aquilo que apenas fora sentido e experimentado por meio de percepções e do sensório, mas que permaneceu sem ligação, sem compreensão.


No início da vida sentimos no corpo; através dele vivenciamos e absorvemos o mundo. Somos apresentados ao mundo por nosso(s) primeiro(s) cuidador(res). Passamos a adquirir conhecimentos e registros do que ocorre ao nosso redor, já desde o ventre materno. Não em forma concreta, tal qual é a realidade, mas a partir de nossas percepções, do que absorvemos dela. Portanto, nem sempre se trata de registros tal qual aconteceram, mas como foram percebidos, sentidos emocionalmente. Embora a percepção do bebê seja apurada, e ele possa captar o que ocorre a sua volta, não possui entendimentos para decifrar ou digerir o que absorve. Registra o que sente, o que percebe. Mas, necessita de seu cuidador efetuando a função materna de traduções, cuidados e acolhimentos.


Porém, desde muito cedo, o bebê é capaz de perceber a "atmosfera", os "climas" emocionais, as tensões ambientais, as intenções de cuidados, os medos, angústias e/ou satisfações. Estas percepções ocorrem por via sensorial e comunicações inconscientes, e os registros destas são armazenados sob a forma de traços mnêmicos (Freud), pictogramas (Lagner), permanecendo ocultos no inconsciente, sem necessariamente possuir representação. Traços mnêmicos referem-se ao registro puro, sem carga emocional, sem haver a ligação da sensação a uma representação. Está relacionado à forma como os estímulos se inscrevem na memória.


Um observador atento e disponível emocionalmente para se conectar com o bebê, com as emoções dele e suas próprias, pode descobrir que o bebê percebe o mundo e comunica desde sempre. Ele possui competências, e é "uma criatura inventiva criador de sentidos e de interação com os outros - através de gestos, de expressões faciais, às vezes pela voz, mesmo se ele ainda não fala a língua." Segundo Trevarten (2019), os bebês possuem motivações nas trocas comunicativas e 2 aspiram a projetos com uma história, desde antes de nascerem. Eles "provocam" o seu interlocutor a continuar a fazer com ele um diálogo. Os bebês diversas vezes nos traduzem acerca do que ocorre com ele e com sua mãe, com seu cuidador. Nos fornecem sinais quando algo não vai bem, sendo capazes de buscar a conexão de sua mãe e, por vezes, por meio desta, fazê-la se conectar com ele e com a vida.


As situações vividas desde à época em que éramos bebês permanecem em nós. Podem passar muitos anos despercebidas e um dia serem acionadas em determinada situação, que por ventura conecte à sensação da vivência anterior armazenada. Isso comumente ocorre na maternidade/paternidade, mas também pode acontecer em diversos momentos ao longo da vida, especialmente naqueles em que nos encontramos mais regredidos emocionalmente, como por exemplo: quando passamos por cirurgia ou nos encontramos enfermos; quando estamos passando por adversidades na vida; quando estamos diante de novos desafios ou mudanças relativas ao ciclo vital; quando nos sentimos de algum modo ameaçados em nossa integridade emocional ou em lugares externos e relacionamentos interpessoais; quando um novo membro chega na família, ou quando se perde um ente querido, etc.


O inconsciente é atemporal. Famosa afirmação psicanalítica, extremamente atual e verdadeira, é bem conhecida dos analistas e psicólogos que atuam com base nesta teoria e explica porque algo que fora vivido, por exemplo, nos primórdios de nossa existência, pode ser sentido como sendo atual e concreto, vivido intensamente quando reatualizado por situações no tempo presente, mesmo "não fazendo sentido" no que se refere às vivências do atual tempo.


Durante a maternidade/paternidade, e de forma bastante visível no início desta, existem momentos em que emoções difíceis ou desconhecidas irrompem de forma extrema ou demasiada, sem fazer um "sentido" com a realidade. Mas, mesmo não fazendo "um sentido", possuem sentido, e a emoção é experimentada de forma intensa, real e atual, devendo portanto ser olhada, respeitada e cuidada. Muitas mães, por exemplo, já se perceberam tristes, ou com sentimentos de raiva, de desamparo ou de impotência extremos, e sem relação condizente com o momento ou a realidade que estão vivendo. Estes sentimentos podem estar relacionados com outros acionados, a partir de algo que fez um link com situações já vividas, mesmo as que não tiveram representação no psiquismo.


Para exemplificar, menciono a situação de quando um luto é re-atualizado. A perda vivida pode ter acontecido há muito tempo, mas quando uma outra perda ou situação aciona as lembranças armazenadas da perda anterior, esta vem à tona no momento presente, com a intensidade de dor do momento acontecido, precisando de palavras e vivências que a esclareçam, e tempo para viver o luto acionado. Uma mãe, por exemplo, ao lidar com a separação de seu filho quando este sai de casa para ter sua independência e viver sua vida adulta, encontra-se extremamente mobilizada e entristecida, em luto profundo por esta perda, como se nunca mais fosse vê-lo. A mudança em si necessita de um luto, mas a sensação de perda está potencializada: sua dor imensa diz respeito, na verdade, a uma separação definitiva por morte que precisou enfrentar em momento anterior de sua vida, cujo luto não pode ser feito. Porém, a dor, mesmo sendo sentida em outro tempo, é relevante, devendo ser respeitada e vivida para ser elaborada, a fim de possibilitar, assim, a continuidade do aproveitamento de momentos bons na vida.


Durante toda a vida esses “links” podem ocorrer e necessitam ser desvendados a fim de que não prejudiquem tanto o desenrolar desta. Jamais serão totalmente evitáveis, mas podem ser compreendidos e passarem a ser sentidos de acordo com a realidade atual (e não a re-atualizada), por meio de uma psicoterapia.


Uma psicoterapia de base analítica fornece auxílio no desvendar desses sentimentos re-atualizados e no desenrolar da vida, possibilitando o viver com menos sofrimentos e de forma mais promissora.


Referência Bibliográfica


AULAGNIER, P. C. (2001). Lá violência de lá interpretacion: dela pictogramas al enunciado. Buenos Aires: Amorrortu. FREUD, S. (1914/1916). Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros trabalhos O inconsciente (1915). In: Obras Completas, 2010, v.XXII, São Paulo: Editora Companhia das letras.

TREVARTHEN, C., AITKEN, K & GRATIER, M. (2019). O bebê nosso professor. São Paulo: Instituto Language. ZIMERMAN, D. E. Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise. (2001). São Paulo: Artmed.

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