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Quando nasce uma mãe, nasce um milhão de culpas.


“... As mães falam. Falam quando passam mal, falam se nos dispomos a ouví-las. É preciso um conjunto de circunstâncias para que se dedicam a falar. É preciso confiança. Há muito medo, muito medo de não serem compreendidas, porque o que falam pode parecer anormal, ou mesmo estranho; tanto que elas se perguntam se não estão exagerando, se não estão a ponto de perder a cabeça. É isso a maternidade é uma história do coração que pode levar a perder a cabeça. Ou, pelo menos, a pensar que perdeu.” (DELASSUS).

Naturalmente, as mulheres, ao  longo de sua trajetória como mães, principalmente, quando se encontram com um bebê sob seus cuidados, tendem a se sentirem anormais, estranhas, com uma sensação de que “... alguma coisa aconteceu, está tudo assim, tão diferente...” Não se sentem mais as mesmas: o corpo está diferente, as emoções estão meio que soltas dentro da mente, as lágrimas rolam pela face, a sensibilidade “à flor da pele”. Isto, quando não ocorre o contrário, ou seja, demonstrações de indiferença, rigidez ou, ainda, extremamente, modernas, atuais, que seguem todas as dicas, roteiros e manuais, no intuito de, serem ótimas em sua função materna.

Este é um tema recorrente em atendimentos às mães e, assim, tenho escutado muito, por parte das mesmas, queixas de sobrecarga física e emocional, beirando à exaustão, sendo que, a frase do título deste post, escutei de uma paciente.

Assim, as exigências do dia a dia, os horários, as cobranças de que têm que dar conta de tudo ao mesmo tempo: casa e trabalho, filho e marido, cuidados consigo mesma e com todos... Ufa! É de deixar qualquer mãe com insônias ou à beira de um ataque de nervos. Brincadeiras a parte? Não, não são brincadeiras, existe, realmente, uma dor, dor ao perceber que, muitas coisas, fatos, situações, atitudes que esperavam de si e dos outros, não ocorreram, ao menos, como idealizavam. Imaginavam, em algum lugar e, em algum tempo de suas vidas, poder vivenciar momentos incríveis, felizes e perfeitos com seus bebês/filhos/família. Esse lugar e tempo parecem ter ficado perdidos no meio do caminho de suas vidas.                                                                

Sem contar, a sensação de inúmeros dedos apontados em direção a sua cabeça, através de sugestões, comentários e críticas, muitas vezes, contraditórias, do tipo: “Põe o bebê na creche/escolinha. É muito bom para socialização...”, “Ah, já vai colocá-lo na escolinha? É tão cedo. Espera mais um pouco!”; Volte a trabalhar, é muito importante para você! Ou, “Já vai voltar a trabalhar, fique mais tempo com o bebê...”, etc. Sem falar da necessidade financeira em que, a mãe não tem outra alternativa, a não ser o retorno ao trabalho, muitas vezes, contra a sua vontade. Outras, “Ah, você tem que ter mais horas com o marido, precisa de mais tempo juntos”; “Hummmm, já vão namorar? E a criança? Vai ficar com quem?”

E, então, o que fazer com sensações de serem impróprias, inadequadas, que nunca fazem o correto? Como lidar com sensações de pressão interna e externa? Que rumo tomar? É possível retornar ao ponto de partida? E qual é o ponto de partida? Seria o tempo onde se acreditava existir a felicidade sem fim, a família perfeita, a famosa “família margarina”? E o ponto de chegada? Terá, um dia, fim? O fim dos problemas, dos sentimentos desconfortáveis, desagradáveis, principalmente, sentimentos de culpa, culpa por querer ficar com o bebê e não poder; culpa por precisar de descanso e, por este motivo, pensar em ter certo distanciamento do bebê? E, assim, como vislumbrar e sentir as partes boas? Estas necessitam permanecer. Mas onde estão? Ou, como reavivá-las?

E aquela época - quando se era apenas filha, em que podia-se se sentir cuidada, protegida? Onde está? Parece que o caminho se inverteu, ou seja, agora,  ela mesma passou a ser a mãe, a que tem que dar conta, proteger, ter tempo, brincar, passar as noites em claro, e  enfim,  cuidar de um serzinho que depende, inicialmente, cem por cento dela, que não fala, que chora sem que ela saiba o porquê? O que fazer? Como lidar com a dependência de um filho quando ela, própria, se sente precisando e dependendo de cuidados? Fugir pra onde? Bem, as fugas, quando houverem, serão muito pessoais e subjetivas: sintomas físicos (dores, alergias, insônias – mesmo quando o bebê dorme bem - , doenças repetitivas...), sintomas psíquicos (irritabilidade, agressividade, angústias, depressão, apatia etc). E, ainda, com o agravo de o bebê poder passar a ter sintomas, também.

Bem, diante todo esse contexto emocional, resultará em sentimentos de culpa por não se sentir uma boa mãe, de pensar que não ama o filho o suficiente, de não estar o tempo suficiente com ele, enfim, a sensação de estar indo em direção oposta ao que gostaria de ser ou fazer, por exemplo,  ficar mais tempo com seu filho para brincar, amá-lo e vivê-lo mais etc.

E, assim, o sofrimento se retroalimenta, dando a sensação de estar no fim do poço ou de não ter luz no fim do túnel, diante o penoso sentimento de carregar dentro de si, um milhão de culpas, os quais poderão dar a sensação de enlouquecer, de perder a cabeça, de querer fugir, de explodir etc.

 Nestes momentos, emergirá desejos de  voltar a receber um colo, um abraço, um ouvido e um olhar afetivo, cuidadoso e confiante que possa lhe dizer, através de gestos ou palavras do tipo: “Confie, tudo isso vai passar e vocês ficarão bem!”;  “Confie que você vai conseguir!” ou “Estou com você”; “Aceite Minha ajuda!” ou “Vamos procurar quem possa te ajudar, um profissional da área da saúde: psicólogo, médico ...?” 

Neste sentido, é de extrema importância que as mães, frente a estas condições, possam se encorajar e falar ao marido/companheiro, familiares, pessoas amigas e de sua confiança e lhes pedir, caso assim o desejarem, que a visitem, que lhe façam companhia, que deseja sua presença ou, ao contrário, poder expressar que, necessita de um tempo sozinha para descansar ou ficar um pouco consigo mesma etc.

Toda acolhida, poderá proporcionar à mãe sentimentos  “de volta para casa”, ou seja, a sua casa interna, subjetiva, a qual abriga seus sentimentos diversos, pensamentos, sonhos, esperanças para que possa ser capaz de se sentir mais inteira, com a sensação de ocupar o próprio corpo e mente, a medida em que vai discriminando o que é seu do que não é. E, assim, mais capaz para tomar suas próprias decisões baseadas no reconhecimento de uma vida possível, ou seja, a de ser a mãe possível; a que pode oferecer o melhor que pode dentro de suas condições; a que pode sentir, seja qual sentimento for, porém, reconhecendo-os como seus. E, assim, sentir que a vida, apesar de não ser a ideal e perfeita, ainda vale a pena ser vivida e sentida junto ao seu bebê/filhos, família etc.  E, assim, Nascer como Mãe.

Sendo assim, é de fundamental importância que, as mães, os pais/cuidadores, possam encontrar um entorno (familiares/chefes/professores) respeitoso e empático, que ofereçam apoio, compreensão e respeito ao momento pelo qual a família passa, ou seja,  o qual o bebê encontra-se estreando para os pais e para a vida. É direito do bebê receber proteção, segurança e, principalmente, afeto, bem como, é imprescindível que todos possam cuidar, zelar e respeitar os pais, em especial as mães, para que estes possam usufruir e vivenciar a maternidade/paternidade oferecendo o seu melhor ao bebê, a fim de poderem seguir rumo ao desenvolvimento, tanto dos pais, enquanto pais como, principalmente, dos bebês.

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