Buscar

O ovo quebrou: e agora?

O teste de gravidez ao dar positivo, gera um impacto para os pais que não estavam esperando pela gravidez, assim como para aqueles que a desejam. O resultado positivo alerta de que a vida do casal e da família irá mudar, todos são convidados a percorrer um caminho desconhecido, e a assumir novos papeis. Além deste impacto inicial, a gestação e o nascimento podem se apresentar de forma ainda mais inesperada, como acontece nos casos de nascimento prematuro, e nascimento com síndromes ou má formação.

        Durante a gestação a mãe passa por transformações físicas, hormonais, psíquicas e sociais intensas. O processo da gestação é complexo, dinâmico e transformador. A cada trimestre o bebê vai adquirindo forma, e vai se desenvolvendo. A mãe vai se descobrindo em um corpo com novo formato. As fantasias a respeito de alguém que está dentro da barriga, passa pela sua aparência, o sexo, sua personalidade, e assim, os pais desenvolvem uma imagem mental de seu bebê, e que geralmente os reflete. De acordo com Klaus e Kennel (1993) uma das primeiras tarefas do papel parental é resolver a discrepância entre esta imagem idealizada e a verdadeira aparência do bebê real. Com isso, vai se configurando o vínculo e do apego dos pais com este bebê, tão importante para o desenvolvimento do pequeno(a) que está por vir.

         Bowlby deixa clara a importância das primeiras relações de um bebê com sua mãe para o desenvolvimento. Considera que a conduta instintiva é o resultado do controle de sistemas comportamentais integrados, que funcionam num determinado ambiente de adaptabilidade evolutiva, em especial, de sua interação com a principal figura deste ambiente, a mãe. Nesta perspectiva, o vínculo da criança com a mãe, chamado por ele de apego, tem uma função biológica que lhe é específica e é o produto da atividade do sistemas comportamentais que têm a proximidade com a mãe como resultado previsível.

         Acontece que só iremos conhecer o bebê quando efetivamente ele nasce. E os eventos não esperados tendem a abalar o desenvolvimento do vínculo e apego.  Neste momento em que os pais conhecem o bebê real, aquele bebê que se fantasiou em toda gestação, é bem ao contrário ao bebê que se recebe nos braços. Este é um processo natural, e esperado. O bebê imaginário e o bebê real se referem às fantasias, as impressões e os sentimentos maternos em relação ao filho durante a gestação e após o nascimento (Lebovici, 1987).

        Porém, quando há intercorrências e/ou alterações neste percurso, seja com parto prematuro ou um bebê com síndrome ou má formação, o impacto torna-se maior. A discrepância do bebê fantasiado com o bebê que nasceu não tem proximidade alguma. O choque da produção de um bebê com “defeito” visível é atordoante e avassalador. Exige dos pais uma grande e necessária adaptação. E ainda por cima fere o narcisismo dos pais, onde não encontram semelhanças físicas neste bebê. O bebê sonhado é um composto de impressões e desejos, derivados da experiência dos próprios pais (KLAUS e KENNEL, 1993).

        De fato, ninguém está pronto para lidar com uma dificuldade deste nível, e assim surge a necessidade de novas adaptações. O impacto de lidar com o ovo quebrado é o trabalho em que os pais terão que ter para reorganizar suas expectativas, desenvolver uma reestruturação psíquica para interação, para assim, conhecer e se relacionar com o bebê que nasceu e que precisa tanto de cuidados, e principalmente de afeto.

Referências

Klaus e Kennel. Pais/Bebe: a formação do apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

Lebovici, S. (1987). O bebê, a mãe e o psicanalista. Porto Alegre: Artes Médicas.

  • f
  • I
  • y

Rua Acadêmico Reinaldo Consoni, 200.

Córrego Grande, Fpolis/SC

 (48) 99144-4531