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O interior do corpo materno: um reino perdido?

“É no corpo da mãe que o homem conhece o universo, com o nascimento, esquece-o.” (Martin Buber).

  Muito impressionante o que é despertado em cada um de nós, quando nos deparamos com uma gestante. Sentimentos, afetos e emoções, muitas vezes, difíceis para descrever em palavras.

 Nem todos, passaram, passam ou passarão pela vivência da gestação. No entanto, uma coisa é certa: todos, nós, passamos por um período, no interior de uma barriga.

       Então, por não se lembrar (ou não saber) da vivência daquele período, natural querer preencher o vazio, o desconforto do não saber/do não lembrar, através de inúmeras fantasias e idealizações dos mais variados tipos (agradáveis e desagradáveis). Tendemos, ainda, a fazer analogias com o período intra-uterino, mesmo que, de forma inconsciente, tais como:

       Na Clínica, é muito comum ouvirmos frases do tipo: “Quero me esconder em um buraco e ficar lá. ”; “Quero um colo”; “Quero voltar pra barriga da minha mãe” etc. Principalmente, em momentos de dificuldades (internas ou externas, reais ou imaginárias) a tendência é o desejar re-tornar ao útero (lar original) materno. Local onde tudo começou e, se imagina, ter-se tido uma vida de absoluta paz, silêncio, ausência de dores e dificuldades, onde acredita-se: o nirvana predominava.

       Pode ainda, ocorrer o contrário, ou seja, fantasias inconscientes de um local perigoso e ameaçador e, assim, temer ser tragado para o mesmo e, ficar enclausurado vida a fora. É o que poderá ocorrer, por exemplo, nas claustrofobias (medos de locais fechados), sensações de falta de ar etc.

Arquitetura - Os indivíduos vêm buscando investir, no interior de suas residências, não, apenas, como um local de moradia, descanso mas, também,  como forma de refugiar-se do mundo real. Vicente Grégoire, arquiteto francês, certa vez, comentou a uma revista brasileira:  “Cresce o desejo de passar mais tempo no lar, porque, quando estamos fora, tudo é agressividade. A morada é nosso segundo corpo.”

Fauna/Literatura – Existe um fascínio, principalmente, por parte das crianças, por algumas espécies de animais, tais como, os cangurus. As fêmeas, trazem em seu corpo, uma bolsa externa, de forma a poder tirar e colocar seu filhote quantas vezes, for necessário.

     Ziraldo em, um de seus livros infantis, “Meu Amigo, o Canguru” (2005), menciona trechos muito significativos, tais como:  “Desde menino aprendi que foi Deus que fez o mundo em sete dias contados. Fez a luz e as estrelas (...) fez o homem e a mulher as aves e os girassóis fez o parto, a dor, o susto fez a mãe e o filho fez o espanto, a descoberta e o carinho e o canguru”.   Segue:  “... Que bom lugar pra morar!” Continua mais adiante,  “... tem casa, melhor que essa para se esconder da chuva para se esconder do sol?”     

      Melanie Klein, fez importantes contribuições à psicanálise, principalmente, através da análise de crianças, muito precoces, de dois/três anos de idade. As crianças são, naturalmente, cientistas, tendo em vista, tenderem a ser: curiosas, exploradoras, questionadoras, investigativas e desejando saber a origem de tudo.

       Essas qualidades, referem-se aos impulsos epistemofílicos, os quais  conduzem à  busca de conhecimento. A origem destes impulsos, segundo Klein,  estaria no fato das crianças terem ciência do corpo materno (e de seus conteúdos) e, assim, desejar, consciente ou inconscientemente, adentrar o corpo da mesma, no intuito de  ver o que se passa lá e/ou apossar-se do mesmo para, daí, controlá-lo. Tal condição, é necessária para a criança e, ainda, como forma de identificar-se com a mãe.

    Podemos, então, visualizar por, analogia e de forma metafórica, diferentes formas de expressão deste desejo, quer para buscar proteção e aconchego, quer como forma de explorações.

       Como forma de proteção: posição fetal; interior de igrejas; crianças brincando de casinhas, de cabanas. Costumam entrar em suas cabaninhas, principalmente, quando estão se sentindo tristes, magoadas e  decepcionadas, a fim de, buscar consolo e aconchego.

      Também como forma de explorações: as mesmas brincadeiras de barracas; fantasias; sonhos de viagens intergalácticas no interior de espaçonaves e foguetes; grutas, cavernas; florestas (encantadas, virgens, assombradas, perigosas) e reinos perdidos, de forma a viverem grandes aventuras. Estas, para que tenham sabor de “verdade”, deverão conter todos os perigos, riscos e obstáculos possíveis.

     Freud em 1919, comentou que, alguns pacientes neuróticos, do sexo masculino,  haviam expressado que, sentiam  “haver algo estranho no órgão genital feminino”. Freud justificou que esse lugar unheimlich seria “a entrada para o antigo Heim (lar) de todos os seres humanos, para o lugar onde cada um de nós viveu certa vez, no princípio. E mencionou um gracejo: “O amor é a saudade de casa” e, quando “um homem sonha com um lugar ou um país e diz para si mesmo, enquanto está sonhando: ‘este lugar é-me familiar estive aqui antes’”, Freud compreendia  este lugar (no inconsciente) como representando o corpo ou genitais da sua mãe.

       No interior de algumas cavernas encontradas no Brasil e no mundo, encontram-se desenhos em suas paredes, realizados por primitivos. Assim, tal qual, primitivos que um dia habitaram as cavernas, nós, seres humanos, em fantasias conscientes ou inconscientes (também, podemos simbolizar, através de sonhos, nas artes...), desejamos retornar para ver se deixamos nossas marcas e  pegadas nas paredes uterinas, bem como se, a caverna/mãe conservou nossas inscrições em seu interior.

      Ainda, averiguar se existem riquezas/tesouros (aspectos positivos, e saudáveis da mãe; bebês etc), para que o resgate seja possível. O resgate se dará, através da incorporação do tesouro/riquezas,  dentro de si. Ou, ao contrário, caso as fantasias sejam as de ter cometido algum tipo de dano em seu interior, terá a oportunidade de fazer reparações e consertos, etc.

        Para Winnicott (2000), as gestantes, em especial, tendem à regressão psíquica, a qual ocorre de forma inconsciente. Regressão psíquica que, a aproxima de si mesma quando ela própria, ainda, era um feto/bebê, junto a sua mãe.

      Trata-se de um   momento, pelo qual entra em contato com afetos e sentimentos, que são anteriores às palavras. Muito comum, ouvirmos comentários de que está “a flor da pele”. Ela precisará “sentir”, para poder aproximar-se do estado psíquico em que o bebê se encontra, estado, anterior às palavras e, assim, compreendê-lo. O que Winnicott denominou  “preocupação materna primária” (sensibilidade exacerbada).

       A partir de então, poderá estar em condições suficientes para nomear e traduzir o que possa ir ocorrendo com o bebê. Este processo, dificilmente será possível, caso encontrar-se em um funcionamento, apenas, racional.

     Então, devido a esta especial condição psíquica, podemos fantasiá-la ou imaginá-la muito próxima a entrar no “Reino Perdido”. Assim, pensamos: “seria ela um ser dotado de “poderes” por estar, tão próxima e prestes a gozar de tão admirável aventura?

      Seria ela a portadora de trazer notícias daquele Reino misterioso? Estaria, de fato, perdido? Seria, finalmente, re-encontrado? Ela nos contaria o que viu? Traria os tesouros encontrados? Conseguiria retornar e compartilhar sua experiência? Seriam experiências incríveis ou assustadoras? Conseguiria favorecer o resgate das lembranças, de nossa própria experiência original?

        Bem, ao retornar daquele Reino, poderá trazer um tesouro: o bebê. Seria ele, então, o ser - a desvendar seus mistérios? Não! Ele, também, não contará os segredos que viu e as aventuras que vivenciou,  pois, irá, aos poucos, esquecer, tão logo, começar a decifrar novos mistérios, por exemplo, as palavras. Abrir-se-á, então, um novo universo de possibilidades. E, tudo o que foi vivido no Reino do Interior Materno, ficará perdido e esquecido no fundo de seu Reino Psíquico.

      O ser humano, em sua trajetória de vida, terá a difícil missão de continuar a conviver com o não saber. Porém, tal condição, o fará desejar re-tornar ao Reino Perdido para, enfim, decifrar seus enigmas. E assim, na impossibilidade real de retorno, e, caso estiver suficientemente saudável, continuará na incessante busca por conhecer os universos possíveis, quer sejam:  os intergalácticos; os psíquicos; das palavras; da parentalidade; da maternidade; da paternidade; da filiação ...

       E, assim, recuperar ou re-encontrar seus “tesouros”, há muito tempo, perdidos: (bebês-reais; bebês/ideias; bebês/pensamentos; bebês/projetos, bebês inspirações ...). E, então, encontrar seu lugar no Reino das possibilidades, entre os sonhos, fantasias, desejos e realidade.

Liliane Falanga. Psicóloga. CRP-12/01586

Referência:

FREUD, S. (1919). O Estranho. In:Edição standard brasileira das obras psicólogicas completas de Sigmund Freud. v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

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