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O ENCONTRO COM O DESCONHECIDO

O encontro com o desconhecido

O desconhecido é a experiência mais difícil que o ser humano pode lidar. A maternidade, por sua vez, é uma das experiência do desconhecido mais impactantes e desafiadoras na vida da mulher.

Esse desafio pode ser ainda maior dimensionado por conta do “mito da maternidade perfeita”. Essa ideia fantasiosa de que ser mãe é a coisa mais sublime do mundo, dificulta muito o processo da maternidade, uma vez que impõe exigências e culpas demasiadas em relação a mulher.

O crescente número de depressão materna é um modo de furar esse imperativo de felicidade. A maternidade é única para cada mulher e para cada dupla mãe-bebê. Ninguém nasce mãe, por isso cabe a cada mãe inventar-se com seu filho e assim aos poucos ir construindo uma maternidade possível.

O mito do amor materno prejudica muito o desenvolvimento desse processo pois supõe que exista uma mãe pronta, eficiente e amorosa sempre. Porém, a realidade derruba essa idealização, porque o amor materno é um amor humano e frágil como qualquer outro. Cheio de ambiguidades, medos, inseguranças, dúvidas, entre outros, este processo exige tempo e elaboração. Para que seja vivenciado de uma forma tranquila é necessário lançar mão das imperfeições e experimentar o possível para cada uma.

Observa-se atualmente, um movimento importante em relação ao empoderamento da mulher em relação a gravidez e parto. O acesso às informações, o conhecimento sobre o que acontece com seu corpo, e o conhecimento em relação as possibilidades de partos contribui para que a mulher sinta-se mais segura e preparada de acordo com o que ela deseja para si naquele momento (quando isso for possível). Cursos de gestantes, grupos, ensaios, favorecem uma consciência sobre alguns processos corporais e emocionais que podem amenizar angústias e dúvidas próprias deste momento. Sem dúvida, preparar-se e conhecer-se é muito importante, mas deve-se haver um cuidado ao “prescrever” a maternidade, uma vez que ela e única para cada mulher. Há algo incontornável na maternidade. É uma ilusão pensar que toda a preparação possa garantir o que foi idealizado pela mulher. Para suavizar a distância entre o ideal e o real, a mulher deve saber que é importante levar em conta os imprevistos, as contingências que fogem ao controle da família, ou seja, não há preparação total.

O momento do parto, traz à tona inúmeras experiências psíquicas primitivas e armazenadas no inconsciente. Sem dúvida, é fundamental que a mulher reivindique sua escolha, que os profissionais que a assistam sejam éticos e respeitosos, que a mulher assuma o protagonismo do parto, como vem desenvolvendo a ideologia do parto humanizado. Porém o fato da mulher poder escolher e definir tudo, não exclui a possibilidade de imprevistos, o que muitas vezes é sentido pela mulher como desamparo. Corre-se o risco desta mulher ver-se atirada na impotência e desamparo, que são sentimentos muito regressivos e de dependência total, revivendo assim experiências muito precoces de quando ela mesma foi um bebe.

Como podemos observar, preparam-se muito para gestação e para o parto, mas não há preparação sobre o pós parto, sobre o momento de levar o bebe para casa. Preparar-se para o pós parto é igualmente importante e pode amenizar o impacto da intensidade dos sentimentos, prevenindo sintomas da mãe, do bebe e prevenindo o sofrimento familiar. Mesmo quando o parto é maravilhoso, não temos garantia de um pós parto maravilhoso.

No parto, existe uma “ruptura” interna, que exige um trabalho de elaboração psíquica. Assim, uma mãe recém-nascida precisa de solidariedade, apoio, acolhimento, suporte. Inicia-se um encontro com o desconhecido, que é o bebe e aquilo que emerge de dentro dela mesma. Além dos processos inconscientes, a realidade se impõe fortemente e essa nova mãe tem de deparar-se com um bebe real, que quase sempre é diferente do bebe idealizado. Ela sai da onipotência da gravidez para a impotência do cotidiano, e das mudanças nos papéis. Assim, é necessário haver uma reconfiguração familiar, onde pai, mãe, todos nascem e desenvolvem um novo lugar.

É possível que nesse momento, quando muitos familiares estão felizes e comemorando a chegada do recém-nascido, a mãe está se dando conta que ela é a principal responsável por este bebê. Essa responsabilidade traz consigo alguns medos e frustrações.

A vida muda muito com o puerpério, mudanças de prioridades, restrições, decisões e planos são forçadamente refletidos a todo momento, e a mãe não é mais o centro da sua própria vida.

Diante de tantas transformações e exigências é necessário olhar para a mãe e ver qual a disponibilidade e possibilidade dessa mãe para essas mudanças. Não raro, as mães se sentem fracassadas quando percebem que não podem cuidar sozinhas: precisa de muita gente para cuidar de um bebe. Precisamos estar atentos: quais as necessidades dessa mãe para ela poder lidar com tanta mudança? Quais as reais necessidades do bebe? Do que eles precisam? O que esse bebe vai demandar?

O bebe humano nasce extremamente imaturo e por isso ele precisa de muito cuidado para sobreviver, mas além de sobreviver, para existir, para se construir um sujeito. O bebe humano tem fome de que? O bebe precisa de olho, voz e toque. O nascimento de um sujeito depende do investimento dos pais, por isso a subjetividade dos pais não pode ser ignorada. A função dos pais é então, formar esse um sujeito, humaniza-lo. E essa tarefa é muito exigente para os pais. Não basta administrar alimento, sono, prover as necessidades biológicas do bebe, por que ele precisa de mais, precisa ser reconhecido, olhado e amado.

Cuidar do recém-nascido, é então, cuidar de quem cuida dele. A pessoa que o bebe mais solicita é, sem dúvida, a mãe. Por isso, ela precisa estar muito amparada, acolhida, escutada e compreendida, para assim, lidar com o desafio de construir-se mãe.

A mulher e a família encontram-se muito “porosos” nesse momento, o que é bastante importante para as mudanças e transformações. O psiquismo da mulher será desafiado intensa e profundamente, e os marcos que atravessaram a vida da mulher retornam a consciência. É fundamental que a mulher encontre um espaço, um lugar para deixar seus “fantasmas”, a cargo de alguém.

Nesse sentido, o trabalho da Psicologia Perinatal é muito importante nesse momento, onde o cuidado com a mãe se transformara em cuidado com o bebe, na construção de um vínculo saudável, fator primordial para o desenvolvimento psíquico da criança.

A legitimação da autorização desse momento de intensidade emocional é de extrema importância no cuidado com a mulher. Quando as emoções muito primitivas do parto e pós parto podem ser elaboradas, nesse processo de construção da maternidade, a mãe encontra um amparo e acolhimento e assim se fortalece para lidar com os desafios próprios desse momento, desfaz-se os “nós” e encontra-se maior fluidez na relação mãe bebe.

Portanto, cuidar da mãe e da família, é cuidar do bebe. É fazer prevenção e promoção em saúde mental.

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