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O brincar e o desenvolvimento da criatividade na infância

Atualizado: 29 de Ago de 2019


Por Marilia Borba Candaten


"é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)" (Winnicott, 1971/1975: 79-80).


O desenvolvimento da capacidade criativa através do brincar da criança acontece muito antes do brincar propriamente dito, ou seja, desde os primórdios da sua existência, o bebê passa a se relacionar com o outro e é nessa relação que a brincadeira e a criatividade vão se constituindo. Quando o bebê nasce, as trocas com o mundo são concretizadas a partir do encontro e da relação que estabelece com sua figura de referência.


Uma das formas de proporcionar a organização psíquica ao bebê após o nascimento é reatar o contato com as funções fisiológicas da mãe. Os bebês precisam de contato pele a pele com a mãe, de serem movimentados pelo sobe e desce de sua barriga, de sentirem a respiração materna, aproximando-se dos batimentos cardíacos da mãe e aprendendo a brincar de ritmos e contra ritmos em uma relação de mutualidade. Essas necessidades, inicialmente são corporais, mas gradualmente transformam-se em necessidades de ego (Winnicott, 1990).


O primeiro ambiente do bebê é a mãe, ele não se vê como um sujeito separado. Para isso, a fusão emocional e a identificação materna, auxilia na integração da sua personalidade, ou seja, a experiência instintiva repetida e silenciosa de ser cuidado fisicamente, de ser atendido em suas necessidades, ajuda a construir no bebê a personalização satisfatória. Ao sentir-se satisfeito, cuidado e olhado frente às suas necessidades, o bebê adquire capacidade para absorver essa referência de cuidado e constrói o seu mundo interno. A medida que isso acontece, o bebê também passa a reconhecer e se relacionar com o mundo externo, ou seja, responder a estímulos de outras pessoas e brincar com tudo que estiver ao seu redor (Winnicott, 2000; Brazelton & Cramer, 1989).


Com o seu desenvolvimento, a capacidade da criança em lidar com experiências de frustração aumenta. É neste período que a mãe retoma sua própria vida e, aos poucos, torna-se relativamente independente das suas necessidades. A criança começa a reivindicar essas falhas, a mãe precisa permitir essa reivindicação e diminuir gradativamente sua resposta, de modo a tornar possível a vivência da frustração, que permite à criança diferenciar a sua realidade interna do mundo externo. Na frustração, a criança desenvolve a habilidade criativa do pensar (Winnicott,2000).


É neste período que ocorre o desenvolvimento da capacidade criativa do brincar e através dela o indivíduo consegue, a cada novo contato com a experiência, lançar sobre ela um novo olhar, tendo a possibilidade de encontrar saídas criativas para velhos problemas. O brincar é caminho de expressão e comunicação entre o seu mundo interno e o mundo externo, com isso, a criança desenvolve a sua criatividade, curiosidade, autoconfiança, motivação, empatia e cooperação. Aprende a lidar com as frustrações, com as regras, e desenvolve habilidades relacionais necessárias para o cotidiano, ou seja, o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde (Winnicott, 1975).


Assim, conclui-se que o desenvolvimento da capacidade de brincar e de potencializar a criatividade na criança é estimulada a partir do ambiente e das relações sociais favorecidas pelas figuras de referência. Essas capacidades da criança, quando estimuladas e compartilhadas com os pais ou responsáveis na infância, refletirão ao longo do seu desenvolvimento podendo consolidar um adulto com habilidades criativas frente às frustrações e consequentemente, resiliente.


REFERÊNCIAS


Brazelton TB, Cramer BG. A relação mais precoce: os pais, os bebés e a interacção precoce. Portugal: Terramar; 1989..

Winnicott, DW. O brincar & a realidade. Trad. J. O. A. Abreu e V. Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Winnicott DW. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

Winnicott DW. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago,1990.

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