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As palavras para a vida: para sentir, conectar, elaborar, viver, usufruir

Por Joanna Carolina Ramalho e Oliveira Martins



Foto de ensaio fotográfico de Michely Salvador, mãe que perdeu uma das gêmeas e eternizou o lugar da filha falecida por meio de imagens que mostram a “presença da falta” - Reportagem da Revista Pais & filhos

Por vezes, acredita-se que o Tempo é capaz de remediar ou curar, por si só, qualquer dor emocional, situação ou vivência que não pode ser compreendida. Diz-se: “com o tempo passa, esquece-se”. Porém, o que é notório na psicanálise é que a “cura” somente ocorre quando há uma elaboração, quando o vivenciado pode ser entendido, decifrado, chorado, falado, vivido. O “não dito” permeia ‘eternamente’, até poder ser traduzido. São as palavras que conectam, que ligam o sentimento à vivência, permitindo elaborações (Freud 2017; Sezjer, 2016). O afeto é o "fio" de vida, que liga, conecta e promove a vida.

Inúmeros “fios” ligam, desligam, conectam e transformam, moldam o viver. Tanto fios concretos como simbólicos determinam a sequência da vida, as experiências, os desligamentos, as repetições.

A vida, ao iniciar, está determinada pelo “fio” invisível transgeracional. O que foi vivido, imaginado, idealizado, fantasiado ou real em nossa família, em gerações passadas à nossa, é conectado sem se querer, tampouco sem se perceber.

No início da vida, tantos outros fios, concretos e simbólicos, são determinantes para ela existir ou desexistir. O muco que anuncia a liberação do óvulo mostra-se em forma de fio, estendendo-se quando puxado ‘como que’ fazendo “liga”. A “ligação”/junção do óvulo com espermatozóide fornece a “liga” necessária para o início da vida física. O cordão umbilical também liga, conecta. Há os “fios” do leite e do carinho materno, dos braços que sustentam, “ligam” os afetos à experiência, conectam, fazem o “ligar” da vida psíquica.

Em uma UTI Neonatal fios concretos conectam o bebê ao monitor, e fornecem soluções médicas imprescindíveis para a vida seguir. Mas, podem ser invasivos em demasia, impedindo o “fio” da vida de fazer a necessária ligação, tanto com a mãe (continuidade perdida, “fio” desconectado), como com a vida em si, marcando pelo excesso de estímulo, barulho e dor. O contato pele a pele com o bebê, transmitindo o calor humano, uma voz tranquila e empática, acolhendo e traduzindo as vivências dele, amenizam um pouco o desamparo, as experiências invasivas e a dor.

Diversos são os fatores que interferem na vida do bebê, na realização da maternagem e na formação do vínculo entre mãe e filho, crucial para fazer o bebê se “ligar” à vida, entre eles: história familiar transgeracional, o modo como ocorreu a constituição do bebê e sua chegada na família (incluindo as questões relacionadas com a saúde dele, da mãe e de todos que convivem com o bebê); as circunstâncias em que a gestação aconteceu (desejada ou não, intra-útero ou de outra mãe), e se esta está relacionada mais com o crescimento, ou com a repetição patológica de histórias e experiências não elaboradas; a dinâmica familiar existente; o momento de vida atual da mãe, entre outros. Todas essas circunstâncias influenciam o modo de funcionar da dupla mãe-bebê, a existência e tipo de vínculo e a qualidade da maternagem realizada. Moldam o “ligar” da mãe com o filho e o “ligar” deste com a vida e permanecem armazenadas no inconsciente do filho.

Sigmund Freud em sua célebre frase afirma: “a voz do inconsciente é sutil e não descansa até ser ouvida” (Freud, 2017). Baranger, postula: “o trauma não mente, exige a repetição, ordena até que torne claro. O trauma tem sua memória” (Baranger 1994 apud Kancyper, 2002).

Traumático diz respeito àquilo que não pode ser integrado na subjetividade, tendo em vista a precariedade do aparelho psíquico ou o excesso de estímulos existentes (Roussilon, 2012).

Freud referia-se aos desejos, medos, fantasias inconscientes, entre outros, os quais, muitas vezes, são gerados a partir de “não palavras”, não significações. Neste texto utilizo o que diz respeito ao Inconsciente, à sua força subversiva e sua atemporalidade, ao que se torna traumático, ao que não pode ser acessado. Mesmo o que não pode ser acessado, o que é desconhecido, interfere na vida da pessoa, nas relações interpessoais desta, ao longo de sua vida, de forma imperativa e determinante.

Vivências necessitam ser traduzidas, precisam de palavras. Tanto vivências do bebê como  de sua mãe e família precisam ser “ligadas” por alguém, precisam de significações e traduções, do afeto por meio de palavras.

Quando há a impossibilidade da elaboração psíquica dos excessos, quando não pode haver a significação das vivências primitivas, os excessos e faltas traumáticos permanecem não representados, sendo descarregados no corpo, sem “ligação” da emoção com o vivenciado (MCDougal, 1996). Ou geram doenças/sintomas físicos, atuando no “desligamento de vida”, mesmo  com o possível intuito de elucidar, comunicar, “ligar”. Ou são repetidos compulsivamente ao longo da vida (Freud, 2017).

Quando algum evento traumático não é traduzido, seja para um bebê, uma criança, adolescente, adulto, ou uma mãe, por exemplo, fica a margem para eles mesmos traduzirem para si, de seu próprio jeito, a partir de seu próprio entendimento e suas vivências já experienciadas, o que nem sempre pode ser condizente com a realidade, mas com o que absorveu dela.

Embora as percepções que temos nos comuniquem sobre o externo, sobre o outro, não devendo portanto ser desconsideradas, elas precisam ser validadas, entendidas.

Por vezes nosso inconsciente e o nosso corpo captam antes de podermos compreender. Podemos sentir o “clima”, os olhares, o tom da voz, e outros sinais que o corpo de quem está diante de nós comunica. Ao se falar a respeito há a chance de ouvir o outro. E, mesmo sendo real o que sentimos, sendo traduções, algumas vezes, ao pé da letra dos sentimentos do outro, nem sempre o outro percebe-se e sabe o que sente, ou, os seus próprios motivos, pois não parou para pensá-los, senti-los, entendê-los. Quando há a chance de falarmos ao outro sobre os nossos sentimentos e impressões, damos também a ele (e a nós) a oportunidade de olhar pra si próprio, acolher a si mesmo, abrindo um leque de novas possibilidades e futuro. Mesmo que o que é captado do outro seja verdadeiro, este pode não desejar sentir o que está sentindo ou pode futuramente sentir diferente. Isso pode acontecer em qualquer situação, entre qualquer pessoa.

Como exemplo: uma mãe quando se descobre grávida pode inicialmente não desejar o filho, ou até mesmo rejeitá-lo, não vincular-se a ele após o nascimento; mas, quando possui a chance de entender suas motivações emocionais, e de agir diferente, pode enfim se conectar e reparar a desconexão, ou pode sentir-se mais tranquila e certa de suas decisões.

Em casos de adoção, por exemplo, é imprescindível que seja contada para o bebê ou a criança a sua história. O registro dos dados de vida da criança desde seu nascimento, dos desejos e motivações maternas para não ficar com ela (quando possível), e um registro fotográfico do desenvolvimento da criança desde a maternidade, possibilitam que a criança construa sua própria história, de importância fundamental para o seu psiquismo e desenvolvimento. Além disso, é de extrema importância explicar para ela o que ocorreu e o que irá acontecer, para onde irá, etc; que ela não é a causadora do abandono, tenha este ocorrido em função de doação/adoção ou morte da mãe.

Nessas situações de perdas, a criança pode entender que não é digna de amor, fantasiar por exemplo que fora abandonada por não ser boa o suficiente para ter feito a mãe ficar, moldando seu psiquismo e posteriores vivências interpessoais. Porém, a motivação pelo abandono, doação ou até mesmo a morte da mãe, diz respeito às vivências maternas e não à criança real. Esta precisa de palavras que decifrem e nomeiem seus sentimentos. Necessita de traduções. Precisa também de uma pessoa mais constante e estável que esteja ao seu lado; a constância de uma pessoa, cuidando da criança, fornece a segurança que ela precisa.

Diante disso, é sempre importante validar o que foi sentido, as dores emocionais, entre outros, mas esclarecendo os motivos reais, desmistificando os fantasiados.

Quando pode ser revelado o que se entendeu, explicitado o que se imaginou, é possível um outro entendimento e então uma outra forma de relação interpessoal. Por outro lado, quando não se pode entrar em contato com suas fantasias inconscientes, vivências, dores emocionais, lembranças traumáticas, estas permeiam a vida promovendo desconexões, de si mesmo, do outro e da vida.

Quem não possui a oportunidade de entrar em contato e clarear os sentimentos armazenados dentro de si, pode possuir dificuldades de se conectar emocionalmente com outra pessoa, pois o afeto necessita permanecer isolado para que não acesse o afeto temido que causa dor, desconforto ou medo.

Muitas vezes, quando não existem palavras que traduzam a dor emocional, o corpo assume  o palco dessas dores, ali fazem morada até poderem ser, enfim, olhadas, traduzidas, elaboradas. Pode ocorrer sistematicamente, de modo que as emoções são sentidas apenas no corpo, ou momentaneamente, quando excedem a capacidade do psiquismo de traduzi-las. Em ambas situações, as palavras podem traduzir, conectar, fazer a ligação entre o sentimento e o entendimento, permitindo a elaboração, a partir de uma relação interpessoal.

Como exemplo de percepção que precisa ser validada, cito a situação de quando ocorre a morte de um membro da família e não se conta inicialmente para a criança ou, até mesmo para o bebê sobre o ocorrido. Diante da dor e da espera de se encontrar palavras que aplaquem o desespero da perda, muitas vezes nada é dito que comunique ou explique o acontecido. Porém, há a percepção apurada dos pequenos, desde muito cedo eles captam os sentimentos, os climas, as tensões, mesmo sem entenderem. Precisam de traduções. Os adultos nestas situações da morte de um ente querido não encontram palavras para eles mesmos, mas precisam contar o motivo de sua tristeza. Se não contam, se não explicam inclusive o motivo da morte, deixando claro que não possui relação com a criança, esta permanece à mercê de suas próprias conclusões (muitas vezes culpam-se pelo ocorrido) e, suas conclusões a irão acompanhar na vida.

Com relação à forma de tradução nos casos de morte, nada melhor do que a verdade, falar dos sentimentos e fornecer para a criança ou mesmo o bebê, dados reais do ocorrido, sempre deixando claro que ela não é culpada, e sim as circunstâncias ou a vida.

Diante de uma morte, seja de um adulto, de um feto, de bebê ou em maior idade, sempre haverá a falta, pois uma pessoa é insubstituível, e a lacuna existe. Precisa ser velada, elaborada. É necessário haver um espaço para isso, para colocar em palavras a dor, a angústia, a tristeza, os medos.

Quando há a perda de um gêmeo, por exemplo, independente de ser dentro do útero ou fora, independente da idade, a falta existirá para o gêmeo sobrevivente e para os familiares, e precisa ser olhada, sentida. Jamais será preenchido o lugar do gêmeo morto (ou de um filho em geral). É importante deixar o lugar da pessoa que se foi, a fim de amenizar um pouco a dor, ao contrário do que se imagina; pois nenhuma outra pessoa substituirá àquela falecida; cada ser é único e formas adotadas de colocar o mesmo nome no filho seguinte, por exemplo, trazem mais danos a quem perdeu e a esse filho "substituto". Este, necessitará preencher um vazio que jamais será capaz, e não por suas qualidades ou defeitos mas por não poder ser outra pessoa como se desejava que fosse, e por precisar ficar preso à uma história que não é sua, sem viver, moldando suas próprias vivências sem de fato poder ser olhado pelo que é.

As dores da vida precisam ser choradas, veladas, para então poderem ser enterradas. Porém, mesmo enterradas não serão apagadas totalmente, vez por outra serão lembradas, pois a falta existiu e permanece. Pode-se amenizar e significar, permitindo uma outra maneira de lidar com a falta, com a vida, de modo mais condizente consigo mesmo e com o que a vida permite e espera, de modo que a pessoa possa ser ela mesma, inteira, mesmo com as dores e as faltas.

Realmente, só o tempo não cura, as elaborações são necessárias. As dores e vivências, idealmente, precisam ser entendidas, decifradas. Precisam de palavras de tradução, acolhimento, de escuta. Escuta feita tanto por um outro como por si mesmo.

Sentindo o que é desagradável, ruim ou triste, abre-se caminho para sentir o que é bom, para viver as relações de forma inteira, com conexões e vínculos saudáveis e verdadeiros.



Referências bibliográficas:

FREUD, S. (2017). Fundamentos da Clínica Psicanalítica - Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

SZEJER, M. (2016). Se os bebês falassem. São Paulo: Instituto Langage.

KANCYPER, L. (2002). O Complexo Fraterno e suas quatro funções. Revista de Psicanálise, vol. IX., n.1.

MCDOUGALL, J. (1996). Teatros do Corpo: O Psicossoma em Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

ROUSSILLON, R. (2012). O desamparo e as tentativas de solução para o traumatismo primário. Revista de Psicanálise da SPPA, v. 19, n.2, p.271-295.

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