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Antes de uma mãe, existe uma mulher.


Nem todas as mulheres são mães, nem todos os homens são pais, mas todas as mulheres e todos os homens nasceram de uma mãe. Uma mãe, que antes de ser mãe, é uma mulher que traz em sua história as possibilidades de experienciar a maternidade. Hoje, talvez, mais do que em qualquer outro momento histórico, as mulheres que se tornam mães ou não, estão conseguindo expressar seus sentimentos sobre a maternidade, sejam eles quais forem, e essa maneira também estão problematizando a organização patriarcal que até então imperou em torno da mulher e da maternidade, em nossa sociedade. Tal movimento não se deu ao acaso, e parece que após séculos de silenciamento, vem nos relembrar que a subjetividade é construída a partir da intersecção entre o individual e o social. Assim sendo, é urgente dar visibilidade a influência sócio histórica do patriarcado sobre os corpos e mentes das mulheres, bem como sobre a construção do que é a maternidade e de como ela é experienciada pela mulher neste contexto. Dito isso, convido a pensar em como o domínio patriarcal sobre as mulheres pode ter contribuído para a construção de maternidades frustradas e desempoderadas, quando o devir mãe da mulher se limitava a reprodução de um padrão que anulava sua subjetividade. Destaco também as nefastas consequências da culpabilização das mulheres durante o estabelecimento do vínculo com seus bebês, quando elas não se encaixavam na imagem de “boa mãe”, porque ousavam, mesmo que, timidamente, se queixar de dor, tristeza ou demais dificuldades no pós parto. Quantas amamentações foram interrompidas por pudor e falsa moral devido ao tabu construído em torno da “mãe”, como alguém quase santificada? Quantas mulheres desintegradas e em sofrimento psíquico por conta de crenças culturais reforçadoras de que quando a mulher se torna mãe, ela “deixa” de ser mulher? E a romantização em torno da maternidade que incutiu nas mulheres a falsa ideia de que toda mulher nasce sabendo ser mãe, desejando ser mãe e amando o filho desde a concepção? Quantas mulheres acharam “normal” esquecer de si mesmas, enquanto aceitavam todas as transformações inerentes a chegada de um bebê com sorriso no rosto, casa arrumada, marido satisfeito? De quantas mulheres foi furtada a oportunidade de legitimar sua própria experiência da maternidade? É impossível mensurar. Mas é possível constatar tais angústias, que mudam apenas de aparência, mas persistem ao longo do tempo, nos consultórios de psicologia. E mesmo considerando o fato de que cada mulher, carrega consigo registros, conscientes e inconscientes, de como é ser mãe, a partir de sua própria vivência como filha de uma mãe e de um pai, isso não significa que tais registros venham a definir totalmente a experiência da maternidade de uma mulher. Esta experiência é única para cada mulher, com cada filho, em cada arranjo familiar. Portanto não pode ser naturalizada, tampouco pensada da mesma maneira para todas as mulheres. Não poderia deixar de citar o quão tênue é o trabalho de delimitar o que é singular e o que é social em um sujeito, neste contexto, tampouco o quão anti-ético seria ignorar a permeabilidade entre ambos, pois quando socializa-se em demasia um processo individual, corre-se o risco de diluir, deslegitimar e desresponsabilizar o que é subjetivo. Da mesma maneira, individualizar um processo social, significa responsabilizar exclusivamente o sujeito por aquilo que é construído socialmente. Sendo assim, imagino que seja necessário desenvolver uma escuta mais apurada em relação às angústias das mulheres no experienciar da maternidade, com atenção para tais diferenciações. Além disso, penso que compreender a experiência da maternidade como um processo a ser desenvolvido e não como um ideal a ser alcançado, pode ajudar a legitimar o devir mãe de cada mulher. Tal processo de maturação, que inicia na gestação, onde a mulher entra numa progressiva retirada libidinal do mundo externo, e passa a investir em si mesma, pode ter continuidade após o nascimento do bebê, se houver espaço para essa mãe nascer também. Importante apontar que neste processo dinâmico de tornar - se mãe, a mulher também se encontrará com suas próprias limitações e com aquelas que lhe foram impostas, configurando um território delicado de espelhamento, onde todo cuidado é pouco para não estilhaçar. Mas ao mesmo tempo, inaugurando um momento propício para escolher quais registros da sua história a mulher manterá e quais ela ressignificará. A perspectiva do processo possibilita que a mulher possa, a seu tempo, elaborar sua “nova identidade” de mãe para sentir-se mais integrada na experiência da maternidade. Por isso quando a mulher quer voltar a trabalhar com dois meses de vida do bebê, para além de julgamentos sobre o desejo dela, talvez devêssemos legitimá- lo enquanto sociedade, profissionais e familiares envolvidos neste processo. Muitas vezes é disso que ela precisa para se conectar ao seu devir mãe e vivenciar de maneira mais inteira os momentos que estiver com sua filha ou filho. O mesmo pode passar com a mulher que quer voltar a atividade física logo após o parto, ou ficar um tempo na casa de sua mãe, ou ainda se dedicar exclusivamente aos cuidados do bebê. Que antes da pressa em julgar uma mãe, nós possamos fazer uma pausa para enxergar a mulher que está vivenciando este processo. E que está mulher seja respeitada em seus desejos ao invés de tolhida, em benefício de um modo de operar ditado pelo sistema patriarcal. Por fim, penso que havendo responsabilidade afetiva, em cada escolha para percorrer tal experiência, não existe certo e errado, culpados e absolvidos, o que existem são arranjos como possibilidades de desenvolvimento para todos os envolvidos. Não existem fórmulas para tornar-se mãe, nem receita para seguir, mas sim uma experiência para viver, onde cada mulher sabe-se mãe na legitimação deste processo.

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