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Angústias da maternidade: comunicações inconscientes entre mãe e bebê

É possível entender os bebês? Como ocorre esse processo? Nós os entendemos verdadeiramente ou eles nos entendem e reagem de acordo com o que precisamos? O que está por trás do choro do bebê? É possível conseguir decifrá-lo? Queremos acalmá-lo ou nos acalmar? O que o choro do bebê pode estar nos comunicando? O que ele desperta ou aciona em nós? O fato de o bebê chorar significa que a mãe não é uma "boa mãe"? Afinal, existe a “mãe perfeita”?

   Diversos questionamentos acerca do bebê e da função materna fazem parte das angústias que muitas vezes assolam a mãe (ou quem estiver exercendo esse papel). Nem todas as questões podem ser respondidas de forma imediata, porém, podem ser pensadas, analisadas e sentidas. As perguntas acima foram formuladas  com o intuito de instigar a reflexão, porém não serão respondidas de forma objetiva, tendo em vista que é preciso levar em conta a conjuntura na qual a mãe e o bebê encontram-se inseridos. Com um olhar atento para a relação estabelecida entre eles, observando a história pregressa dos pais, será possível a obtenção das respostas. 

     A história da mãe, o modo como ocorreu o parto, as constituições familiares, a existência ou não do apoio familiar, influenciarão o entendimento do bebê, de seu choro, o estabelecimento da amamentação, conexão e a formação do vínculo entre a mãe e o filho.

  Zorning afirma que “as representações dos pais sobre o bebê e eles mesmos como pais desempenham um papel importante na natureza dos vínculos estabelecidos entre os pais e filhos, e se iniciam antes das interações atuais com o bebê, englobando as fantasias parentais, medos, sonhos, lembranças da própria infância e profecias sobre o futuro do bebê.” (Zornig, 2012, p 21).

    Toda gestação e nascimento são individuais, únicos, e o sentido dos fenômenos ocorridos no decorrer destes momentos só pode ser decodificado e entendido dentro do contexto da história individual de cada mãe, bebê e família. Até mesmo o choro do bebê, por exemplo, possui um significado diferente, dependendo do ambiente familiar em que se encontra. Vale ressaltar que nem todos os choros são iguais, ainda que se assemelhem. Um bebê que chora muito, ou que não dorme de forma contínua, quando isto não é mais o esperado em função de sua idade, não é igual a outro com os mesmo sintomas.

      A relação primitiva do bebê com sua mãe (ou substituta) é de grande importância, pois é formadora da sua constituição psíquica, do modo como ele se constituirá como ser humano. E essa primeira forma de se relacionar na vida será "determinante da configuração e conduta, que marcarão a qualidade dos vínculos exteriores, ao longo da vida de todos nós" (Zimerman, 1995 p. 24).

    Porém, toda a história de vida dos pais, e a história pregressa da família de origem de ambos, está implicada na disponibilidade de realmente conhecer e poder entender o que acontece com o bebê, bem como influencia o modo como se desenvolverá a relação da mãe/pai com o bebê e o que pode acarretar a partir disso.

    Considerando que o nascimento de um filho desperta diversos tipos de sentimentos nos pais, os quais possuem relação com o passado deles, seu funcionamento psíquico, e com o novo a ser desvendado, este evento comumente desestabiliza emocionalmente esses pais (mais especificamente a mãe), e os pais de “primeira viagem”. Isto pode acontecer mesmo quando tudo corre bem, quando mãe e bebê encontram-se com saúde e em um ambiente relativamente tranquilo e acolhedor. Pois, no início, o cuidado com o bebê muitas vezes é extenuante e permeado de angústias, medos e dúvidas sobre o que o bebê necessita, ou se os pais serão capazes de cuidá-lo ou até mesmo amá-lo.

    Mesmo os que já passaram pela experiência de ter um filho, e já vivenciaram as mudanças impostas pela chegada de uma terceira pessoa na vida do casal (quando existe um casal), estão sujeitos a novos desafios após a chegada de mais um membro na família. Além de enfrentarem e elaborarem seus próprios sentimentos, precisam lidar com as emoções despertadas no(s) outro(s) filho(s), com a chegada do mais novo membro da família, seu irmão. Esta família precisará de um tempo para conhecer o bebê e então se adaptar a realidade da nova configuração. Além disso, como dito anteriormente, conflitos inconscientes não elaborados emergem neste momento, até poderem ser solucionados.

    Com o nascimento do filho, há um rompimento no modo de funcionar, tanto do casal, como dos pais individualmente. Ambos são confrontados com sua própria história, lembranças de seu nascimento, de sua época de bebê e sua primeira infância, incluindo os cuidados recebidos (ou não) por seus pais. Estas “lembranças” ocorrem à nível inconsciente, e nem sempre são trazidas à consciência, embora sejam sentidas, e afetem diretamente os cuidados dos pais para com os filhos e a família. Situações traumáticas vividas por estes pais enquanto filhos, vêm à tona neste momento, de forma consciente ou inconscientemente. Lembranças difíceis, ou situações não resolvidas interferem no emocional destes recém-pais, podendo afetar diretamente o bebê.

    Todas as pessoas possuem registros inconscientes acerca das vivências, percepções sensoriais e relacionamentos interpessoais. Muitos destes registros jamais se tornarão conscientes, porém, serão sentidos mesmo assim, e por vezes se age de acordo com eles, com o que ficou gravado no psiquismo. Quando não se pode rever as questões internas, as emoções relativas às vivências passadas, acontece a repetição patológica das relações já experienciadas (Freud, 2017). Este fato pode ser observado pela reprodução das situações vividas (sem de fato se perceber), com o intuito de que se modifique o resultado ou de que este seja elaborado. Os pais projetam no bebê os seus sentimentos e percepções; estão sempre comunicando algo de modo inconsciente, não possuindo controle a respeito deste fato. Porém, precisam acolher o bebê e dar nome para suas angústias.

    O nascimento de um filho acarreta, então, a reedição das configurações vinculares, baseadas na internalização de padrões de interação e mandatos transgeracionais. Os pais podem se identificar com os seus próprios pais, repetindo padrões de condutas destes, e/ou podem ter uma identificação com o filho, o que gera a tendência de projetar sua história em seu filho (Lebovici apud Solis-Ponton, 2004). Como exemplo cito o caso de um pai que sempre interpretava o choro do bebê como fome; todavia, este pai é que passara fome em sua infância e suas angústias e vivências passadas estavam sendo projetadas no bebê.

     Quando as angústias dos pais são muito intensas, pode acontecer a dificuldade deles captarem o que o bebê sente e o que ele está comunicando. Dependendo da história vivida pelos pais quando eles próprios eram um bebê, ou em função de terem passado por dificuldades ou perdas que não puderam ser elaboradas (quando os lutos necessários não puderam ser vividos), a dor inconsciente poderá ser vista por meio de um sintoma no bebê. Muitas vezes o bebê chora os desconfortos dos pais, as angústias, o que eles não podem sentir ou não elaboraram. Casos de bebês que não dormem, não ganham peso ou choram demasiadamente, por exemplo, sem nenhuma causa orgânica relacionada, podem ser relativas às dores emocionais não elaboradas dos pais (Fraiberg, Adelson & Shapiro, 1994).

     Mas, se "o nascimento de um filho costuma ressignificar certas situações traumáticas dos pais que tinham sido aplacadas durantes anos e só obtêm um novo significado a posteriori, a partir do investimento identificador de suas histórias não processadas em algum de seus descendentes”  (Kancyper, 2002, p. 10), como é possível conseguir exercer a função materna de forma satisfatória? Sem ser uma mãe intrusiva, que invade demasiadamente o bebê com suas angústias ou o atende a partir de percepções pautadas na transgeracionalidade, e não a partir de percepções colhidas por meio da sua conexão?

    Winnicott (1988) refere o estado psicológico da gestante, pouco antes de dar à luz e algumas semanas após o parto, como sendo um período em que a mulher encontra-se "enferma" (se não fosse gestante ou  puérpera, poder-se-ia dizer que encontrava-se realmente enferma). Para a mãe conseguir compreender os sentimentos do filho e conseguir entendê-lo e acolhê-lo, ela precisa estar neste estado que o autor chamou de Preocupação Materna Primária: um estado de regressão materna de forma que ela se encontre regredida e se identifique com o bebê, podendo assim perceber o que acontece com ele.

     Tanto a gestante, como a puérpera, encontram-se regredidas, "tal qual um bebê”, regredidas à sua época de bebê, e necessitam que alguém exerça, para elas, o mesmo papel: desempenhe a função maternal. Assim como o filho, ela está se adaptando às novas vivências, do puerpério, e de conhecer e atender seu bebê. Pode se encontrar assustada ou angustiada nesta nova função, e também, como ele, precisa de um entendimento das mudanças físicas e psíquicas pelas quais está passando. Necessita de nomeações e traduções de seus diversos sentimentos.

    Entretanto, os sentimentos que angustiam a mãe muitas vezes fazem parte do cotidiano, sem que necessariamente constituam um problema. Sentimentos de vazio, solidão, desmantelamento, medo, angústia, e alusões à perda e morte podem aparecer, tanto em função de situações anteriormente experienciadas pela mãe, em função das mudanças hormonais relativas à gestação, parto e puerpério, como pelo fato da mãe encontrar-se identificada com o bebê, sentindo o que ele está sentindo. Este último é esperado e desejado que aconteça e denota a conexão existente e importante entre mãe e bebê.

   É a partir dessa conexão que o conhecimento do bebê acontece. A mãe (ou a pessoa que desempenha este papel) é a melhor conhecedora de seu filho, desde que se encontre vinculada a ele por meio de afeto e disponibilidade emocional, e sua angústia do não saber, e seu medo, não sejam extremados. Caso ultrapassem seu limite, afetem o bebê ou a relação com este, faz-se necessária a busca por um tratamento psicoterápico e uma rede de apoio emocional.

De acordo com Kancyper, “é possível que os pais só comecem a recuperar alguns capítulos de suas próprias histórias não elaboradas, não integradas, a partir dos efeitos provenientes de determinadas marcas traumáticas com as quais havia inconscientemente identificado um dos filhos.”  (Kancyper, 2002, p. 11).

    Um olhar dos pais, atento para si próprios, para suas angústias e vivências passadas, e para seu bebê,  pode evitar a repetição patológica dos conflitos psicológicos. Isto porque “os conflitos infantis dos pais determinam a natureza das identificações da criança, e os sintomas apresentados pelo bebê têm a marca parental” (Lebovici 1987 in Zorning, 2012, p.20).

    Com a disponibilidade emocional (e de tempo) da mãe para a maternidade, o saber de que não precisa acertar sempre e dar conta de tudo, a função materna terá tido êxito em seu propósito. Não existe uma mãe perfeita, não se acerta sempre, e nem se espera que isto aconteça. O fato de levar um tempo para decifrar o bebê ou para atendê-lo quando este pode esperar, não prejudica o desenvolvimento do bebê. Não sendo intrusiva ou ausente demais, atendendo as necessidades do filho, tanto de afeto como no que se refere aos seus cuidados, propicia o crescimento saudável do filho.

     Assim, com a conexão emocional existente entre mãe e filho, acontece o entendimento do bebê e seu desenvolvimento, visto que é nessa inter-relação que os vínculos se estabelecem e possibilitam o crescimento. É através da empatia, capacidade da mãe de ser continente, verdadeira, paciente e respeitosa (Bion apud Zimerman, 1995), juntamente com seu olhar e sua capacidade de amar e desejar o melhor para seu filho, que este pode se desenvolver, ser entendido, decifrado e amado.

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