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A maternagem como uma forma de prevenção

Atualmente existe uma preocupação em torno da prevenção na área da saúde, o que é bastante pertinente, aja vista que várias ações preventivas podem ser implementadas para auxiliar, por exemplo, na adequada estruturação da personalidade infantil. Nesse aspecto, a forma como a mãe se vincula ao filho é de fundamental importância. Muito se discute sobre o instinto materno, algumas vertentes teóricas acreditam que a mulher não necessita passar pela maternidade para realizar-se plenamente, que tanto a mulher como o homem possuem as mesmas aptidões e que o impulso natural de manter a espécie está muito mais ligado ao estímulo sexual do que ao afetivo.

     Há outras que atribuem às condições externas, o desejo de querer ou não ser mãe, ou seja, é um processo totalmente influenciado pela educação que a mulher recebe, pelo seu ambiente e pela cultura. Por outro lado, existem aquelas que argumentam a presença sim do instinto materno e que ele vem à tona em diferentes épocas e com distintas peculiaridades, conforme o funcionamento de cada mulher. Afinal é ela que possui as condições biológicas de gerar, nutrir e formar um novo ser.

    E é sob esse ângulo que a “maternagem” pode ser entendida, como uma função eminentemente preventiva. Fala-se aqui de uma atitude necessária da mãe para receber o bebê, aproximar-se, oferecer colo, conter e dar significados às experiências do filho. 

     A partir da concepção, inicia-se a maternagem, aquela filha e mulher acrescenta em sua vida o papel único e sem volta: o de ser mãe. Uma ligação que, ao longo de nove meses, vai estruturando-se; realizam-se trocas tanto físicas como psíquicas entre mãe e bebê. A mãe para se vincular e incorporar a experiência da maternidade regride e se centra no processo da gravidez, no bebê que está gerando.

    Passo a passo o vínculo vai se consolidando, a mulher revive seus jogos e vivências infantis, o relacionamento com sua própria mãe, oscila em seus papéis: muitas vezes sente-se como mãe, outras ainda como filha, nessa preparação especial de receber seu bebê e ser capaz de acolhê-lo e captar suas necessidades. Nesse sentido, cabe enfatizar a psicologia pré e perinatal que vem crescendo e trazendo novos conhecimentos, na busca não só de entender e descobrir o que ocorre no desenvolvimento psicoafetivo do bebê em seu nascimento, mas ainda na fase intrauterina.

     Existem comprovações que demonstram a reação do feto aos estímulos sonoros, entre os quais estão: os sons fisiológicos da mãe que vem de seu sistema digestivo, cardiovascular, da voz materna, como de estímulos externos. Observa-se em vários partos, no momento em que o bebê ouve a voz materna acalma-se, como também se tranquiliza ao ser colocado em contato em contato com a mãe, assim que nasce, a esperada “hora dourada”. 2

     Segundo Zimerman, Bion em seus estudos, a cerca do psiquismo fetal, “há muito mais continuidade entre a vida intrauterina e a primeira infância do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos permite acreditar.” (3p. 134)

    Partindo desse pressuposto considera-se que o feto, o bebê em formação é muito mais ativo, do que passivo no útero materno e interage com essa mãe e o meio, recebe registros, vivencia experiências, as quais são armazenadas em seu inconsciente e que farão parte de sua estrutura de personalidade. Esse “banco de dados emocional” pode iniciar o seu funcionamento, em períodos ainda muito primitivos. Tomando por base as pesquisas realizadas, através da Observação da Relação Pais-Bebê, Método Bick constata-se que desde a concepção as influências ambientais já estão presentes e envolvem desde as histórias de vida dos pais, suas experiências, conflitos, heranças transgeracionais ao papel que o bebê vem desempenhar.

    Neste sentido Caron salienta: “Merecem um destaque especial na evolução da relação mãe-feto as imagens internas que a mãe faz de seu filho, as representações pré-parto, ligadas ao seu bebê-imaginário e que são um prelúdio da futura relação mãe-bebê. Isto porque o bebê segue, por um tempo, totalmente dependente de sua mãe-ambiente para sobreviver e vir a ser alguém autêntico, livre e independente.” (1p.126).

   Dessa relação materno-fetal segundo Caron pode ser estabelecida uma sintonia, através da qual tanto o bebê, como a mãe possibilitam trocas para o andamento satisfatório da gestação e saúde de ambos até o parto, como também nas etapas subsequentes que a dupla vivenciará e suas demais relações.

O NASCIMENTO DE UMA NOVA FAMÍLIA

     Uma mãe que estabelece com seu bebê ainda na gestação uma proximidade significativa, apesar das ambivalências esperadas neste período, reúne maiores condições de firmar com ele, nos primeiros momentos de vida, um vínculo básico ao seu saudável desenvolvimento. Como o bebê é imaturo em todo o seu funcionamento, necessita fundamentalmente do outro e a primeira relação nessa fase é a simbiose mãe-bebê, na qual encontra-se indiferenciado com a mãe, como se ambos fossem um só. Cabe lembrar aqui que ele necessita do aparelho psíquico materno para estruturar o seu e que nessa trajetória é preciso indiferenciar para diferenciar, idealizar para desidealizar e, conforme algumas das contribuições de Mahler, gradualmente deve haver um movimento de diferenciação até que possam se cumprir todas as fases concernentes a uma completa separação-individuação da criança. Nesse começo a dupla mãe-bebê pode ser destacada como a percursora da saúde mental do bebê. Como ela se dá é fundamental nas medidas profiláticas do desenvolvimento infantil.

Um funcionamento eficaz dessa dupla (díade), ou seja, de uma mãe que seja: integradora, continente, vincula-se, conhece, comunica-se e satisfaz as necessidades de seu bebê possibilita uma adequada continuidade à estruturação psíquica da criança. Vale acrescentar a contribuição de Xavier ao ressaltar “a importância da capacidade da mãe que consegue decodificar os sentimentos ruins do bebê, desintoxicá-los, na medida em que os devolve modificados, tornam-se mais suportáveis ao filho. A mãe que consegue interagir desta forma, estabelece com a criança uma relação mais integrada, além de proporcionar ao filho a internalização de um bom objeto”. (2-1996). Paralelo a isso é fundamental um meio familiar adequado, que receba e contenha a dupla mãe-bebê, nesse período inicial de adaptação a uma nova vida para todos, porque não nasce somente um bebê, nasce uma mãe, um pai, uma família.

     Tão importante quanto à construção da dupla é o desfecho da mesma, isto é, o bebê vai organizando-se psiquicamente, conforme a mãe organiza-se entre as experiências da gravidez, parto, puerpério e todos os conteúdos e conflitos vividos nessa etapa. Se houver maior flexibilidade e tolerância maternas frente às perdas e separações, é possível que ambos possam experimentar de uma forma mais tranquila a dissolução da simbiose em que estavam e sigam em separado, discriminados, porém acrescentando vivências novas ao seu vínculo mãe e filho.

Nas primeiras interações com o filho, a mulher conta com sua porção infantil e com uma “imagem de mãe”.

     Quais os componentes internos de uma mãe que consegue exercer a função da maternagem?

     Um deles é a capacidade materna de regredir, ficar num estado especial que Winnicott chama de Preocupação Materna Primária (PMP) que a faz ser empática com seu bebê, identificar-se com ele e perceber suas demandas para assim atendê-lo de forma satisfatória. Esse estado inicia na gestação e segue assim algumas semanas após o parto. É uma relação complementar, a ponto de pensarmos que a mãe não existe sem o bebê e o bebê não existe sem a mãe. Pouco a pouco a mãe volta ao seu estado normal de funcionamento. Spitz atribuiu a este movimento a reativação de um canal de comunicação chamado “cinestésico”, ou seja, uma comunicação realizada visceralmente, através dos órgãos sensoriais entre mãe e bebê.

     Os sinais e movimentos que o bebê envia ao nascer e sua mãe capta intuitivamente, pertencem a esse tipo de comunicação e podem estar ligados a: temperatura, postura, tensão muscular, ritmo, contato pele a pele, voz e etc. Toda essa capacidade de ligar-se e perceber os sinais emitidos pelo bebê, mesmo antes do seu nascimento se traduz no que Winnicott definiu como PMP. Nestas primeiras interações, a mãe conta com a sua porção infantil e também com uma imagem que possa ter construído internamente, a imagem de uma “mãe suficientemente boa”, mesmo que não tenha vivido essa relação com sua própria mãe.

     O que é mais importante é como pôde viver suas primeiras experiências com sua mãe ou substituta. Quando enfatiza-se este “suficientemente boa” não significa dizer “mãe idealizada”, ao contrário, trata-se de uma mãe que seja real. Uma mãe real sente: raivas, alegrias, atende seu bebê, mas o frustra também, apresenta limites, verbaliza suas gratificações, ansiedades e conflitos, inerentes a qualquer ser humano.

     Observa-se que para implementar a psicologia preventiva na área da saúde é preciso que o psicólogo faça como um bebê em sua fase inicial: solicite, chore, reivindique pela operacionalização de práticas profiláticas à estruturação sadia da personalidade infantil. Há ainda a necessidade deste tipo de movimento, para que do outro lado, se possa encontrar colegas, profissionais da área da saúde e pais que acolham essas demandas e propostas. A medida em que todos se unam para a importância da prevenção, poderemos chegar antes dos problemas se instalarem e atuarmos firmemente para a prevenção da saúde mental.

1 – Trata-se de uma função exercida pela mãe que busca conciliar as solicitações do bebê com o atendimento materno, sem sobrecarga de frustrações, nem inibição do processo de individuação da criança, ao longo de seu desenvolvimento.

2- A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os recém-nascidos não sejam separados de suas mães na sala de parto. E lembre-se: este é um direito do seu bebê e seu! Se o bebê nasceu sem problemas de saúde exija ou alerte seu acompanhante para que o faça – que a limpeza do bebê, sua pesagem e outros cuidados sejam feitos depois da primeira mamada. Exija também ter seu bebê em contato com sua pele. Isso garantirá que o bebê se mantenha aquecido e, melhor ainda, dará a vocês a oportunidade de criar um laço afetivo de valor inestimável. (4)

Bibliografia:

Caron, N. A Relação Pais-Bebê/da observação à clínica. São Paulo, 2000.

Xavier, S. A contratransferência e a identificação projetiva. São Paulo, 1996.

Zimerman,D. Bion – Da teoria à prática. Porto Alegre, 1995.

https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=250314

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