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A mãe possível

O universo da maternidade costuma ser quase sempre (especialmente nos primeiros anos de vida) uma experiência desafiadora e muito impactante na vida da mulher. Diante de tantas novidades e mudanças, nos deparamos com a impotência, medo, ansiedade e exigências internas e externas, decisões, e além de tudo isso, a culpa.

      O mito da maternidade perfeita recai sobre a mulher com uma força tal, que não importa o que faça ou deixe de fazer, as mães comumente sentem-se em dívida. Essa ideia fantasiosa de que ser mãe é a coisa mais sublime e natural do mundo, dificulta muito o processo da maternidade, uma vez que impõe exigências e culpas demasiadas em relação a mulher.

      A hora de colocar na escola, a volta ao trabalho, a necessidade de descanso, as possibilidades sobre amamentação, o uso da chupeta, o alívio porque o filho dormiu, a raiva por causa da birra, são inúmeros os motivos que levam as mães a se cobrarem e sofrerem com a exigência da maternidade perfeita.

      Por que engatamos com tanta facilidade nesse discurso ideal e na prescrição de uma maternidade que quer excluir erros e faltas? Afinal, por que a mães se cobram tanto? É uma construção cultural? Faz parte da identidade materna? Aspectos culturais e intergeracionais operam essa trama de expetativas perfeccionista em relação a figura materna.

      Sabemos que a relação precoce da criança com a mãe configura boa parte de seu aparelho psíquico e que essas experiências emocionais marcam a personalidade do sujeito, assim podemos concluir que sim, a mãe possui um lugar importantíssimo no desenvolvimento emocional do sujeito. Porém, Winniccot (1982) salienta que o desenvolvimento emocional satisfatório necessita que a mãe tenha condições de exercer o seu papel de uma forma apenas suficientemente boa, e não perfeita.

      Significa dizer que a mãe necessita investir no bebê afetos, presença, tempo, mas também que ela pode falhar, faltar, e que sua ausência temporária não torna-se um mal em si, mas sim, um espaço de tempo necessário para o bebê, criar, fantasiar, simbolizar e elaborar. Além disso, as relações da criança com terceiros, o pai, ou outros cuidadores exercem papel fundamental da estruturação psíquica do sujeito em formação, uma vez que promove a separação da díade mãe-bebe e oferece a criança outras possibilidades identificatórias.

      Consideramos válida a reflexão sobre o imperativo da perfeição e felicidade materna, uma vez que a maternidade é única para cada mulher e para cada dupla mãe-bebê. Muitas mães vivem atormentadas por culpas desnecessárias, oriundas de ansiedades e medo de não serem amadas, lutam para serem perfeitas, sem se darem conta de que uma mãe perfeita é uma tragédia para seu filho. Os filhos crescem muito com nossos erros, e aprendem que são humanos como nós. Uma mãe que quer ser vista como perfeita faz com que seu filho se enxergue muito pequeno, e cresça excessivamente crítico.

      Quando uma mãe erra, e sim ela vai errar várias vezes, ela pode conversar com seu filho sobre isto, e mostrar como se sente, como se repara um erro, e como é digno assumi-lo, e ainda mais, como podemos aprender com nossas falhas, ficando apenas com a responsabilidade e não a culpa, assim vamos aprendendo mutuamente mãe e filho nessa jornada.

     Ninguém nasce mãe, por isso cabe a cada mãe inventar-se com seu filho e assim aos poucos ir construindo uma maternidade possível. Compreender que o amor materno é um amor humano e frágil como qualquer outro, cheio de ambiguidades, medos, inseguranças, dúvidas, e que este processo exige tempo e elaboração. Para que seja vivenciado de uma forma tranquila é necessário lançar mão das imperfeições e experimentar o possível para cada uma. Como disse Freud “nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”.

Referência

Winniccott, D. editora Francisco Alves. 1982.

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