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Á sombra da solidão na maternidade atual

Cada cultura carrega às gerações condutas, moral, valores que detêm normas, organizações e leis. As famílias carregam herança da cultura de seus antepassados, e consequentemente da época em que estavam ou estão inseridos. Na maternidade não é diferente. A mulher ao tornar-se mãe está permeada pela herança da transmissão psíquica de sua família e cultura, de modelos de como exercer a maternidade. Ao mesmo tempo, também, carrega o simbolismo da função paterna, mas aqui abordarei sobre o papel da mãe no contexto atual.

      Acontece que no século passado a passagem da cultura familiar estava mais ativa e próxima. Tinha-se mais filhos, e a família participava da rotina da gestante, no nascimento e crescimento do bebê. As mães estavam amparadas por familiares e vizinhos. As crianças e adolescentes vivenciavam os cuidados com o recém-nascido, e por ter uma experiência próxima era permitido aprender a prática de cuidar de crianças, bem como da recém-mamãe.

      É percebido nos atendimentos psicológicos, que as mães atuais vivem a maternidade, muitas vezes, solitária. O que para algumas é uma opção, pois não querem “pitacos” de ninguém inclusive da família. Para outras, é vivido com muito sofrimento, pois não tem uma base de referência. Relatam que não sabem se o que estão sentindo ou passando é normal ou é culpa sua.

      A família predominante na atualidade conhecida como “nuclear”, composta por pai, mãe e filhos, nos afastou da proteção da família estendida (primos, tios, avós, sobrinhos). Esta geração que não pode resolver muitas dúvidas com suas famílias, correm o risco de estarem distantes das necessidades biológicas e emocionais dos filhos. Os pais passam a recorrer a grupos em redes sociais, manuais de como educar, maneiras de  introduzir alimentos, dentre outros, agindo de forma intelectual e se afastando do que o momento pede.

      De fato, a forma que a família/cultura lida com a maternidade auxilia a nova mãe a buscar padrões a se guiar. A transmissão psíquica é central no grupo familiar e nos remete à inscrição do sujeito em uma cadeia geracional da qual ele é um elo. A transmissão psíquica geracional remete à condição do sujeito enquanto herdeiro forçado, beneficiário, mas também pensador e, ate mesmo criador daquilo que lhe foi transmitido (JARAMICO et al., 2016).

      Para Freud (1976/1896) sobre a ação de um multiplicador num circuito elétrico, multiplicador este que exagera o desvio visível da agulha, mas não pode determinar a sua direção. Exemplifica, as possibilidades de transformação do destino do sujeito, caso contrário o sujeito estaria fadado a repetir desoladamente. Com isso, a nova mãe diante o que lhe foi apresentado e transmitido, poderá refletir e tomar para si aquilo que a abasteça em sua maternidade, mas que para isso, é preciso ter algum padrão apresentado. Pois assim, é possível contrapor ao mandato herdado.

      Contudo, a maternidade é um momento de grandes alterações físicas e emocionais, vivenciada pelas mulheres de forma intensa, o que reforça a importância de se ter um apoio social e familiar presente para diminuir as ansiedades. Diante disso, a  psicoterapia poderá auxiliá-la a se aproximar do que foi lhe transmitido psiquicamente e fortalecer a maternidade de forma mais verdadeira para cada sujeito, aproximando-se da história individual que ao mesmo tempo está permeada pela bagagem, e pela forma que seus antepassados lidavam, e assim possibilitar novos destinos.

Referências

Freud, S. (1976). A hereditariedade e a etiologia da neurose(vol. V). Edição Standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1896)

JARAMILLO CARUSO DE AZEVEDO, Luciana et al . O conceito de transmissão psíquica na obra de Freud: a perspectiva de René Kaës. Pensando fam.,  Porto Alegre ,  v. 20, n. 2, p. 162-176, dez.  2016 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2016000200012&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  02  maio  2018

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